O último post, sobre o Big Brother, tá hilário. O F. Vives, que escreve, é um sujeito raro. Consegue ser um crítico lúcido sem perder o bom humor, e combina as duas coisas sem virar uma máquina de sarcasmos.
Esses dias me encuquei tentando entender como é que funciona essa coisa de democracia. Quer dizer, democracia bem na origem mesmo, o "governo da maioria", a tomada de decisões de interesse coletivo a partir da aferição do nível de apoio recebido por algo que é proposto por alguém. Isso é bem bonito mesmo, mas acho que a maioria das pessoas democráticas por aí (essas que adoram armar um barraco em reuniões de condomínio) ainda não assimilou de verdade a idéia. Por exemplo, tava lendo hoje uma notícia: "Sindicato de Hotelaria e Gastronomia é contra Lei Seca nos estádios". Por quê? Porque isso prejudica o trabalho dos vendedores de bebidas, é claro. No entanto, o tal sindicato não manifestou esse argumento, que é mesmo muito forte, de uma maneira realmente democrática. Democrático seria dizer: "não queremos que o trabalho dos vendedores de bebidas seja prejudicado". Porque a circunstância dos vendedores é só UM dos aspectos envolvidos na decisão sobre a instituição ou não da Lei Seca. O Sindicato poderia perfeitamente ser favorável a todos os outros aspectos, sem precisar condenar a idéia INTEIRA só porque ela atinge negativamente um interesse que é SÓ SEU. E se a proposta da Lei Seca envolvesse uma contrapartida favorável aos vendedores de bebidas? É evidente que na prática é isso que o tal sindicato quer dizer. O que eu to tentando apontar é que, pela própria maneira como a gente fala, acaba evidenciando a ignorância geral sobre o que é viver, e conviver, num regime democrático (sempre assumindo-se a democracia como a coisa mais próxima da idéia de "justiça" que conseguiram inventar até hoje). Na hora que se põe na mesa qualquer discussão que possa afetar interesses individuais (ou individualmente coletivos, como de um sindicato), sai todo mundo desesperado querendo defender o próprio umbigo. A gente deveria aprender a enxergar as coisas mais de cima. É nesse ponto que eu percebo que eu também não sei direito o que é democracia. Imaginem uma eleição presidencial. Existe um candidato (doravante Firmino) cuja proposta é favorável a um grupo do qual eu faço parte; a eleição desse sujeito seria vantajosa pra nós, os Firminianos. No entanto, eu sei que o outro candidato (doravante Sebastião) simpatiza com um outro grupo, os Sebastianinos, que eu SEI que precisa mais de ajuda do que o meu. Se eu votasse no Sebastião, estaria colaborando com uma categoria que precisa de colaboração, o que é muito justo; no entanto, a minha própria categoria não estaria representada no resultado final da votação, que é a única maneira de determinar qual o peso que ela tem no final das contas, democraticamente falando. E se ela fosse a maioria? E ainda que não fosse, de que outra maneira ela poderia manifestar o seu interesse, que afinal de contas, também existe?
Fica a pergunta pros advogados, sociólogos e demais entendidos de plantão. (alguém?)
Fui ver meio no susto uma peça chamada "Não Assim Tão Longe", movido pelo inusitado de que uma boa amiga musicista estaria operando a luz. Um ator e uma atriz, cenário escuro e mínimo, e a morte como tema - os atores interpretam cartas reais de suicidas. Mais uma peça discutindo a urgência da modernidade, a angústia da existência, as horas que passam sem sentido, a dificuldade em relacionar-se, a solidão.
Isso tudo é bem batido, e o teatro é onde mais floresce, mas o pessimismo com a vida destrambelhada e carente que a gente leva por esses dias aparece por tudo; tomou conta da literatura, da música, do cinema, das artes plásticas. E pode parecer que não tem mais qualquer sentido em fazer arte com esse viés.
Talvez seja tudo uma enorme reação orquestrada. Que se opõe à carochinha da publicidade ou da televisão, o mundo dos sonhos onde ser hype e ter um celular que fala, filma, fotografa e acessa o orkut pode mesmo suprir todas as carências de qualquer sujeito que esteja "in" (em outras palavras, ao menos saiba o nome dos big brothers).
Do ponto de vista de quem está "out", continuar batendo nessa tecla é chutar cachorro morto. Mas tem que ter algum recado nisso aí. Não pode ser por acaso que toda esse paradoxo existencial seja tão recorrente entre aqueles que pensam. Talvez a mensagem tenha se enfraquecido pela constância (o que não seria nenhuma surpresa), mas seria injusto acreditar que milhares de artistas sérios por aí foram picados ao mesmo tempo pelo mosquitinho niilista, ou varridos sem direito a réplica pelo movimento emo. A mensagem continua viva e honesta: a gente tá no século XXI, não tem mais utopias, já se vão 40 anos do Woodstock, os hippies estão todos barrigudos cumprindo hora pra pagar as contas, e pra quem comete nesse mundo o desatino de pensar, só sobrou a orfandade: há o Estado, há a Igreja (todas elas), há a Lei Rouanet, há os livros de auto-ajuda, mas não há ninguém que nos adote quando chega o final da semana, cada um está ocupado com seus assuntos e não dá pra se esconder atrás do trabalho. Descanso todo mundo quer, mas ninguém sabe muito bem o que fazer com ele.
Nessas horas, não dá pra tirar a razão de quem continua se perguntando: pra que é que a gente vive, mesmo? Não que eu queira entrar na roda viva dos desesperados, até porque viver tem muito de divertido quando a gente procura. Mas essas horas passam como todas as outras, e sempre existe um momento em que todo mundo fica "sozinho com a própria circunstância". E daí, como que faz?
Abaixo, a música que pela primeira vez me fez refletir sobre isso tudo, mesmo que eu ainda não soubesse disso. E já tem uns 12 anos desde que o Carlinhos, aquele menino da síndrome de down, dava voltas no carrossel...
FAKE PLASTIC TREES Radiohead
Her green plastic watering can For her fake Chinese rubber plant In the fake plastic earth That she bought from a rubber man In a town full of rubber plans To get rid of itself
It wears her out, it wears her out It wears her out, it wears her out
She lives with a broken man A cracked polystyrene man Who just crumbles and burns He used to do surgery For girls in the eighties But gravity always wins
It wears him out, it wears him out It wears him out, it wears him out
She looks like the real thing She tastes like the real thing My fake plastic love But I can't help the feeling I could blow through the ceiling If I just turn and run
It wears me out, it wears me out It wears me out, it wears me out
If I could be who you wanted If I could be who you wanted all the time
- Véi, dei uns trato na mina. A tarde inteira. - A tarde inteira? - É, tratei a tarde inteira. - E cumé que tá? - Tá filé. Ela vai começar umas parada aí, um tratamento. Vai perder 16 quilos em 3 semanas. - Três quilos? - Não, dezesseis quilos. - Tesão cara! - A gente fez um trato. Ela disse que se eu entrasse na academia, ela fazia as parada do tratamento. Daí tô vendo umas parada aí pra tomar né meu, que só puxando ferro é muita lesera...