"dentro de mim mora um grito"
Fui ver meio no susto uma peça chamada "Não Assim Tão Longe", movido pelo inusitado de que uma boa amiga musicista estaria operando a luz. Um ator e uma atriz, cenário escuro e mínimo, e a morte como tema - os atores interpretam cartas reais de suicidas. Mais uma peça discutindo a urgência da modernidade, a angústia da existência, as horas que passam sem sentido, a dificuldade em relacionar-se, a solidão.
Isso tudo é bem batido, e o teatro é onde mais floresce, mas o pessimismo com a vida destrambelhada e carente que a gente leva por esses dias aparece por tudo; tomou conta da literatura, da música, do cinema, das artes plásticas. E pode parecer que não tem mais qualquer sentido em fazer arte com esse viés.
Talvez seja tudo uma enorme reação orquestrada. Que se opõe à carochinha da publicidade ou da televisão, o mundo dos sonhos onde ser hype e ter um celular que fala, filma, fotografa e acessa o orkut pode mesmo suprir todas as carências de qualquer sujeito que esteja "in" (em outras palavras, ao menos saiba o nome dos big brothers).
Do ponto de vista de quem está "out", continuar batendo nessa tecla é chutar cachorro morto. Mas tem que ter algum recado nisso aí. Não pode ser por acaso que toda esse paradoxo existencial seja tão recorrente entre aqueles que pensam. Talvez a mensagem tenha se enfraquecido pela constância (o que não seria nenhuma surpresa), mas seria injusto acreditar que milhares de artistas sérios por aí foram picados ao mesmo tempo pelo mosquitinho niilista, ou varridos sem direito a réplica pelo movimento emo. A mensagem continua viva e honesta: a gente tá no século XXI, não tem mais utopias, já se vão 40 anos do Woodstock, os hippies estão todos barrigudos cumprindo hora pra pagar as contas, e pra quem comete nesse mundo o desatino de pensar, só sobrou a orfandade: há o Estado, há a Igreja (todas elas), há a Lei Rouanet, há os livros de auto-ajuda, mas não há ninguém que nos adote quando chega o final da semana, cada um está ocupado com seus assuntos e não dá pra se esconder atrás do trabalho. Descanso todo mundo quer, mas ninguém sabe muito bem o que fazer com ele.
Nessas horas, não dá pra tirar a razão de quem continua se perguntando: pra que é que a gente vive, mesmo? Não que eu queira entrar na roda viva dos desesperados, até porque viver tem muito de divertido quando a gente procura. Mas essas horas passam como todas as outras, e sempre existe um momento em que todo mundo fica "sozinho com a própria circunstância". E daí, como que faz?
Abaixo, a música que pela primeira vez me fez refletir sobre isso tudo, mesmo que eu ainda não soubesse disso. E já tem uns 12 anos desde que o Carlinhos, aquele menino da síndrome de down, dava voltas no carrossel...
FAKE PLASTIC TREES
Radiohead
Her green plastic watering can
For her fake Chinese rubber plant
In the fake plastic earth
That she bought from a rubber man
In a town full of rubber plans
To get rid of itself
It wears her out, it wears her out
It wears her out, it wears her out
She lives with a broken man
A cracked polystyrene man
Who just crumbles and burns
He used to do surgery
For girls in the eighties
But gravity always wins
It wears him out, it wears him out
It wears him out, it wears him out
She looks like the real thing
She tastes like the real thing
My fake plastic love
But I can't help the feeling
I could blow through the ceiling
If I just turn and run
It wears me out, it wears me out
It wears me out, it wears me out
If I could be who you wanted
If I could be who you wanted all the time
All the time...
All the time...
Isso tudo é bem batido, e o teatro é onde mais floresce, mas o pessimismo com a vida destrambelhada e carente que a gente leva por esses dias aparece por tudo; tomou conta da literatura, da música, do cinema, das artes plásticas. E pode parecer que não tem mais qualquer sentido em fazer arte com esse viés.
Talvez seja tudo uma enorme reação orquestrada. Que se opõe à carochinha da publicidade ou da televisão, o mundo dos sonhos onde ser hype e ter um celular que fala, filma, fotografa e acessa o orkut pode mesmo suprir todas as carências de qualquer sujeito que esteja "in" (em outras palavras, ao menos saiba o nome dos big brothers).
Do ponto de vista de quem está "out", continuar batendo nessa tecla é chutar cachorro morto. Mas tem que ter algum recado nisso aí. Não pode ser por acaso que toda esse paradoxo existencial seja tão recorrente entre aqueles que pensam. Talvez a mensagem tenha se enfraquecido pela constância (o que não seria nenhuma surpresa), mas seria injusto acreditar que milhares de artistas sérios por aí foram picados ao mesmo tempo pelo mosquitinho niilista, ou varridos sem direito a réplica pelo movimento emo. A mensagem continua viva e honesta: a gente tá no século XXI, não tem mais utopias, já se vão 40 anos do Woodstock, os hippies estão todos barrigudos cumprindo hora pra pagar as contas, e pra quem comete nesse mundo o desatino de pensar, só sobrou a orfandade: há o Estado, há a Igreja (todas elas), há a Lei Rouanet, há os livros de auto-ajuda, mas não há ninguém que nos adote quando chega o final da semana, cada um está ocupado com seus assuntos e não dá pra se esconder atrás do trabalho. Descanso todo mundo quer, mas ninguém sabe muito bem o que fazer com ele.
Nessas horas, não dá pra tirar a razão de quem continua se perguntando: pra que é que a gente vive, mesmo? Não que eu queira entrar na roda viva dos desesperados, até porque viver tem muito de divertido quando a gente procura. Mas essas horas passam como todas as outras, e sempre existe um momento em que todo mundo fica "sozinho com a própria circunstância". E daí, como que faz?
Abaixo, a música que pela primeira vez me fez refletir sobre isso tudo, mesmo que eu ainda não soubesse disso. E já tem uns 12 anos desde que o Carlinhos, aquele menino da síndrome de down, dava voltas no carrossel...
FAKE PLASTIC TREES
Radiohead
Her green plastic watering can
For her fake Chinese rubber plant
In the fake plastic earth
That she bought from a rubber man
In a town full of rubber plans
To get rid of itself
It wears her out, it wears her out
It wears her out, it wears her out
She lives with a broken man
A cracked polystyrene man
Who just crumbles and burns
He used to do surgery
For girls in the eighties
But gravity always wins
It wears him out, it wears him out
It wears him out, it wears him out
She looks like the real thing
She tastes like the real thing
My fake plastic love
But I can't help the feeling
I could blow through the ceiling
If I just turn and run
It wears me out, it wears me out
It wears me out, it wears me out
If I could be who you wanted
If I could be who you wanted all the time
All the time...
All the time...
Labels: angústia, modernidade, tempo

9 Comments:
Nessas horas eu penso, dentre outras do mesmo autor, em "Nothing but flowers" do David Byrne. Não só o fracasso do 'flower power', mas, pra mim ao menos, o saco cheio disso tudo.
Há sim outros poderes no século XXI. Nem tudo é nihil, nem tudo é lacônico. Um podcast aqui, um projeto alí e há, sim, saída.
O problema é esse mesmo que apontou: as saídas são órfãs. A coisa ensimesmou...dá uma preguiça de juntar gente!
...sinto falta de gente...
Um abraço, tio.
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dicionarista-embaçado, at Sun Mar 16, 08:39:00 AM 2008
tava pensando nisso esses dias também. ninguém se preocupa mais com
nada... só com seus próprios projetos e suas coisas. mas tem uma coisa
também... algumas pessoas que se preocupam desse mesmo jeito fazem,
não por escolha própria, mas porque as outras pessoas só se preocupam
assim, e não resta mais nada a fazer a não ser se juntar à elas.
(meu post tinha mais coisas, mas foi censurado por forças maiores! hahaha)
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Sammy, at Sun Mar 16, 02:59:00 PM 2008
mas sabe que no meio desse oco, ou escuro, ou sem-sentido, tem momentos que trazem sentimentos, ilumina, ou sem-nome qualquer, que fazem valer uma vida inteira daquele instante. Daí você pensa "é por isso que eu estou aqui!". Uma música sua que toca o outro, um movimento de mão da avó em coma, a frase que deu certo, causar o encontro de duas pessoas, um elogio que salva o dia... Prefiro me apegar a essas coisas, por mais sem sentido que sejam.
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Lilian, at Mon Mar 17, 12:13:00 PM 2008
Poxa, segunda de manhã e vc já me vem com essa Fe?! hehehe
Não sei, mas pra mim essas manifestações artísticas recentes sobre o assunto não passam de desabafos pessoais. Há uma repetição, como vc disse, que só me leva a crer que não há recado algum, apenas desabafo. O problema é q sempre acabam despertando crises em nós, sendo que já pensamos nisso várias e várias vezes! Eu prefiro evitar, pq já mastiguei e engoli. Fuga? Não. Saco cheio. hehehe O que me chama a atenção nesse tipo de coisa é apenas a forma como é transmitida a questão existencial, pq o conteúdo... O conteúdo as pessoas estão cansadas de saber. Talvez não faça mais efeito mesmo por causa disso, como vc disse. Isso não quer dizer que prefiro que não exista esse tipo de manifestação. É intrínseco a nós, humanos. Utopias eu acho que existem ainda sim, e muitas. Na verdade até mais que antes. Hoje as pessoas buscam mais ainda felicidade onde não existe. Mas sabe, existe um outro lado que me intriga também. Essa onda "Sunscreen", onde as pessoas se "vestem" de Amélie Poulain e saem por aí fingindo que valorizam o simples da vida e a própria vida, sendo que "ter um celular que fala, filma, fotografa e acessa o orkut" supre as suas carências. Mas isso é pano pra outra discussão... hehehe
Saudades de conversar contigo.
Sempre por aqui...
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ana, at Mon Mar 17, 12:48:00 PM 2008
Tchê, "sozinha com a própria circunstância" é a mais nova descrição de mim. Vou usar no meu msn, deixa ? =)
Um beijo querido, e vamos vivendo assim.
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Vivian, at Mon Mar 17, 03:37:00 PM 2008
por mim, tá autorizado! mas é bom perguntar pros herdeiros do Ortega y Gasset. a frase é dele. :)
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Felipe, at Tue Mar 18, 07:50:00 AM 2008
Meu caro, Felipe, esses pensamentos todos, todos esses momentos desenvolvidos fazem milênios na des-humanidade sobre a Terra, de uma circunstância passiva, sem atitude e fé nas próprias responsabilidades, é que fizeram o espaço pra tantas adversidades, tantas tristezas e maus arquétipos que somos circunstanciados. Estamos com tudo isso à nossa volta, mas não podemos nos esquecer do universo que temos todos dentro de cada um. Um universo de circunstâncias maravilhosas ou catastróficas, mas são todas possíveis. Acho mesmo que a pluraridade de opções, a superficialidade do toque, nas coisas, nas pessoas, nas artes, nas políticas, nas aulas, nos aprendizados, nos bares, nas camas, tudo isso só pode levar ao desespero, mas pode levar à muita inspiração pra causar ambiêntes maravilhosos, sublimes, cheios de tesão e amor, pra superar qualquer dor. Aliás, dores essas que perseguem todos nós, vivos, capazes de sentí-las. Mas os cíclos passam em espirais, pegando força a cada volta, em cada som, cada toque dado com carinho.
Doido, você é o cara! Tenha paciência que a vida te pega uma peça, te arruma uma boa circunstância... ...aproveita!!!
Abraço!
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Marcelo Oliveira, at Tue Mar 18, 01:06:00 PM 2008
Deveria virar moda a busca pela alegria. Momentos "down" são bons para se refletir, entre outras coisas. Mas devemos sempre buscar a alegria, fazer algo que nos proporcione isso. Alguns desistem quando percebem que o que buscaram era algo difícil como a arte, mas, se fosse fácil não tinha tanta graça.
Enfim caro Professor de Piano I, vulgo Felipe, vulgo Tchê...fiquei divagando aqui apenas pra falar que citaste uma boa música.
É isso.
Abraços.
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vitor moraes, at Sat Mar 29, 12:58:00 AM 2008
No seu caso acho que tah mais pra um "I want to break free"!
OOOOOOHOHOHOOHOHO!
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Luiz kruszielski, at Fri Nov 14, 07:35:00 AM 2008
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